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De Belém ao Jordão
25.12.2017
Foram 30 anos de “vida oculta” que Jesus viveu em Nazaré. Todos eles também contam na obra da redenção tal como os três anos de vida pública. Suscitam perplexidade. A mesma que terá tido Maria, sua mãe, conhecedora do projeto divino, mas respeitadora dos tempos divinos e do mistério que acompanha a ação de Deus. Nunca saberemos exatamente, na lógica humana, o porquê dessa aparente demora. Muitas leituras e interpretações se podem fazer, mas para Deus o tempo cronológico é relativo, «mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem, que passou», diz o Salmo 90.

Será sempre um tempo que nos interpela quanto ao real valor da existência. Na leitura de uma lógica utilitarista, afigura-se perdido, talvez, até, desperdiçado, podendo ser mais bem aproveitado – quantos pobres, doentes, marginalizados e pecadores a precisarem de um gesto de redenção... Mas dessa forma reduz-se a existência ao que se faz e produz, declinando o sentido da vida ancorada nos valores da relação, da comunicação e da comunhão que deixam motivações, por mais simples e humildes que sejam. Se Jesus tivesse vindo para solucionar num ápice os problemas da Humanidade, não precisaria de encarnar e os problemas voltariam de novo. Não basta dar o peixe, há que ensinar a pescar, partilhando todos os momentos e afazeres da vida comum, mesmo a dos mais simples, porque aí sobressai melhor a presença de Deus. Como afirma S. Paulo em 1Cor 1,26: «Mas Deus escolheu o que é loucura no mundo para confundir os sábios; e Deus escolheu o que é fraqueza no mundo para confundir o que é forte.» Maria também foi escolhida porque «sobressai entre os humildes e os pobres do Senhor» (Lumen gentium, 55). No início da vida pública, Jesus era conhecido como «Jesus de Nazaré, filho de José» (Jo 1,45; Lc 4,22). Na sinagoga da sua cidade natal, os judeus perguntam: «Não é este o filho do carpinteiro? Não é Maria sua Mãe?» (Mt 13,55).

Jesus não Se escondeu na aldeia perdida de Nazaré que nem é referida na Bíblia e de onde nada de bom poderia vir, nas palavras de Natanael. Não fugiu para o monte ou para o deserto, mas demandou lugares que privilegiassem o encontro intenso e imenso com o Pai. Jesus apenas Se escondia das luzes da ribalta, da fama e das glórias humanas, tão fugazes quanto aparentes, que ofuscam os pensamentos e atordoam o sentido da vida.

Os anos de Jesus em Nazaré iluminam a vida dos que vivem para os outros e pelos outros, nos afazeres do dia a dia, sem pretensiosismos, na dedicação e na convicção de que, mesmo não tendo cinco minutos de fama, a fragrância do sorriso de Deus não falta e abençoa os que são simples de espírito. São esses os cidadãos do Reino que Jesus veio inaugurar com o seu nascimento.

Aos leitores e colaboradores, os mais profundos votos de Santo Natal e de um Ano Novo pródigo de bênçãos divinas.