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Gestos que transformam vidas
17.07.2017
Quando Jesus Cristo pegou em 72 dos seus seguidores e os enviou, aos pares, às cidades vizinhas para lhes falarem d’Ele, iniciou um movimento missionário que até hoje tem conhecido várias facetas.

Há cerca de 30 anos, começaram a surgir em Portugal grupos que se chamavam de voluntariado missionário (VM), ou Ad Gentes. «São voluntários que levam também a missão de evangelizar, além dos projetos técnicos que tenham a seu cargo» no terreno de missão, explica-nos Catarina António, responsável pela plataforma de Voluntariado Missionário da Fundação Fé e Cooperação (FEC), a ONGD (Organização Não-Governamental para o Desenvolvimento) da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que congrega 61 entidades de VM espalhadas por todas dioceses, incluindo ilhas.
 
A grande maioria das centenas de jovens que todos os anos participam em ações de voluntariado Ad Gentes parte em missões de curta duração, normalmente durante as férias de verão da faculdade. Entre duas semanas a seis meses, os projetos visam colmatar necessidades de projetos maiores, ou cumprir uma função específica. Este é um cuidado que acontece cada vez mais, para garantir que os projetos são mesmo de desenvolvimento, e não de assistencialismo, como se via acontecer por vezes. «A realidade tem vindo a mudar. No plano de formação da FEC, batalhamos muito nessa questão: os voluntários não vão mudar a realidade, vão contribuir para o que já está a ser feito, e acho que isso tem mudado ao longo dos anos», considera Catarina António.
 
Foi precisamente isso que Sofia Baptista, de 26 anos, foi fazer à Bolívia há dois anos, integrada num projeto de curta duração. Esteve um mês em Santa Cruz de la Sierra a trabalhar com crianças, jovens e idosos, e foi uma experiência que lhe mudou a vida. «Foram dias e semanas carregados de emoções e histórias bem intensas. Momentos em que o coração ficava bem apertado por lidar com realidades e situações tão duras. Foi aí que aprendi que só o facto de estar presente ali e naquele momento é o suficiente para que todas aquelas vidas com que me cruzei ficassem um pouco melhores», conta-nos a uma distância que lhe permite perceber como tudo aconteceu, deixando-se ainda tocar pelas histórias que recorda.

A Sofia, na Bolívia, com uma idosa local.
É para sentir estas emoções que a Inês Sousa, uma enfermeira de 22 anos, se prepara para partir para Angola, para o Zango, nos arredores de Luanda. «Nunca questionei muito a razão de ir em missão, foi algo que sempre me atraiu, uma espécie de bichinho latente», diz, enquanto se confessa motivada para «fazer a diferença, na medida do possível».
Não há receios antes da partida, a não ser o receio de «não querer voltar». «Quanto ao resto, penso que me irei adaptar. O ser humano tem como grande característica a capacidade de resiliência e adaptação. Basta ir de coração e mente abertos e sem medo de arregaçar as mangas», afirma, esperançosa.
 
Muitas vezes, as perceções de quem está para partir colidem de forma muito dura e difícil com a realidade do terreno. Por isso, e também para garantir a apropriada formação «técnica, humana e espiritual», a FEC proporciona aos voluntários uma formação geral durante um ano, que é depois complementada por formações específicas dentro de cada organização.

Catarina António explica que «todos os voluntários têm formação, mesmo os que vão em curta duração, mesmo por 15 dias».
Esta formação incide também numa questão que seria, à partida, das mais tranquilas, como é a vida comunitária dos voluntários que partem, mas que no final se revela das mais difíceis de gerir por quem está em missão no terreno.

A Inês prepara-se para partir para Angola, para o Zango.
Inês Sousa está agora a completar o percurso de formação e concorda que esta foi essencial na sua preparação. «As formações, quer as locais, dadas pelo grupo, quer as formações nacionais dadas pela FEC, permitiram desconstruir muitas ideias pré-concebidas e perceber o nosso papel como voluntários: ninguém nos pede para ir, nós é que vamos porque queremos. Então, não nos podemos esquecer que a comunidade para onde vamos tem uma organização e cultura próprias, cujas formações foram importantes para o conhecimento mínimo das mesmas e, assim, não é nosso direito impor valores, ideias, comportamentos pelos quais nós nos regemos neste cantinho à beira-mar plantado.»
Uma certeza parece ser a de que ir em missão transforma vidas. «“Eu não sou a mesma pessoa” é a frase que mais ouvimos. Podemos pensar que estas missões curtas não têm impacto, mas têm. Os choques culturais e espirituais são muito grandes, e as pessoas vêm mudadas. Poder ver pessoas que não têm água, ou comida, faz com que os voluntários voltem mais disponíveis, mais abertos, mais perto das pessoas», e esses ensinamentos são depois passados para a vida “normal” que retomam.
 
Para os interessados em partir, é só clicar em www.fecongd.org e não pensarem que basta fazer as malas e arrancar. «A primeira coisa é que não pensem que vão partir amanhã. É necessária formação, e para isso podem ao nosso site e ver a lista de 61 organizações católicas ou ligadas à Igreja e contactar a mais próxima. Ou se precisarem podem entrar em contacto connosco e nós ajudamos a encaminhar», promete a Catarina.

Pode ler toda a reportagem na edição de julho-agosto da revista Família Cristã.
 
Texto: Ricardo Perna
Fotos: D.R. e Ricardo Perna
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