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Morrer aos bocadinhos
10.07.2017
Não te lembras quando é que a tua vida passou a ter dois dias e a pressa tomou conta do resto do teu calendário. Será que ainda são dois os dias em que vives?

Tornaste-te prisioneiro do teu tempo, riscas os dias para as folgas porque foi lá que deixaste o teu sorriso… e queres usá-lo. És tão mais feliz quanto os riscos mais depressa se fizerem; vais deixar para doer quando fores mais velho o facto de o tempo ter passado depressa sem o teres vivido. Uma dor de cada vez… e esta que sentes agora faz-te doer a alma e ocupa muito espaço. Se passarem depressa os dias em que tens de fazer riscos talvez consigas congelar a tua vida num dia de folga. Ou talvez ela mude.

É isso que mais desejas, que a tua vida mude. Se ao menos conseguisses voltar a ter vontade acordar. Mas as manhãs são o mais horrível dos teus dias; ainda faltam as horas todas para conseguires mais um risco. E tu estás tão cansado! Tão cansado de obrigar as pernas a ir e os olhos a não chorar.

Quando consegues, o dia já nem começa mal. Sais sempre mais cedo de casa, para o caso de começares a chorar quando estás a chegar. Não sabes o que é que aqueles últimos 100 metros têm que te roubam o controlo, naquela distância não és senhor de ti e os olhos choram quando querem. Ainda bem que chegaste cedo. Tens de ter tempo para secar as lágrimas, respirar fundo e imaginar que dali a umas horas conseguiste mais um risco.

Não foi há muito tempo que não conseguiste mandar nas pernas e parar as lágrimas. Foste o caminho todo controlado, mas chegaste lá à porta e não conseguiste entrar. Voltaste para trás.

Ouviste no outro dia alguém utilizar uma expressão e, por momentos, pensaste que estavam a chamar-te pelo nome. Morrer aos bocadinhos. É isso. Todos os dias morres um bocadinho, aos bocadinhos.

De vez em quando decides que queres viver mais um bocadinho, procuras umas frases inspiradoras para te motivares e sonhas que vais conseguir mudar a tua vida. Mas para o caso de não o conseguires e de maneira a não morreres já, passas a pensar nas coisas a um ano. Sim, um ano é muito tempo e certamente já não estarás nesse emprego.
Afinal, diz a frase, a escolha é tua. É? Será que quem desenha riscos nos dias ainda tem escolha?

Não te lembras como chegaste a esse emprego, mas sabes que não era aquele que querias. Aceitaste-o porque foi preciso, acreditaste que ia ser provisório e tornou-se a coisa mais permanente da tua vida. E a mais pesada.

Se ao menos hoje as pessoas fossem simpáticas, não trouxessem problemas difíceis, se fossem gentis e te dessem um sorriso e uma voz calma. Se tivessem um bocadinho de coração, talvez conseguisses morrer menos um bocadinho. Agora segura as lágrimas, porque tens de abrir a porta e já há tanta gente para atender.
 
O “tu” deste texto existe, aliás, são vários os que conheço. A sensação de “morrer aos bocadinhos” foi-me descrita por uma das pessoas que vive a vida a riscar os dias. Uma parte da ansiedade destas pessoas é causada pelo público, com quem tem de ter contacto. Não podemos ser responsabilizados pela infelicidade de alguém, mas não custa contribuir para que morra menos um bocadinho. Um pequeno gesto de gentileza e empatia pode ajudar a que quem nos atende em algum lado alivie o peso dos seus dias.