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«Os teus filhos não são teus filhos»
05.09.2017 10:20:00

Às vezes, ser pai e mãe é ter um amor do tamanho do mundo estrangulado no diâmetro de uma ervilha. E às vezes, esse estrangulamento é consciente e ponderado. Porque os pais, conscientes e ponderados, também são um bocadinho «loucos». E o amor, incondicional e generoso, tem destas coisas contraditórias…

Estou a poucas horas de uma decisão que me confronta com a verdade nada poética de que «os meus filhos não são meus filhos».

Não há direito de dar um amor desmedido às pessoas e depois exigir-lhes que o deem ao mundo. Ou então dizer-lhes, «vá, toma lá um sentimento gigante, mas sabe de antemão que te vais tornar especialista em “meter o Rossio na Rua da Betesga” e que é bom que aprendas a conseguir continuar a respirar depois disso. Pensavas que era só segurá-los no colo, prendê-los nos braços, e fazê-los teus para sempre?»

Às vezes era isso mesmo que gostávamos que acontecesse. Por isso é que ficamos horas a olhar para vocês e a desejar congelar-vos naquele instante em que os vossos olhos nos dizem que o vosso mundo todo somos nós e que a vossa ideia de amor só tem uma imagem, a nossa.

No fundo, nós sabemos desde sempre que vocês não são nossos, mas nem sempre queremos pôr em prática essa “razão” sábia, porque um amor desmedido como é o dos pais, que precisa de se “acomodar” dentro de um coração, pode tornar-se um bocadinho doloroso e quem é que gosta de sentir dor, afinal?

Estamos quase a sentir doer a ervilha em que se transformou o nosso coração de pais. Sempre nos preocupámos em deixar-vos fazer o vosso caminho, mas vocês ainda são tão pequeninas que só tínhamos vivido coisas “confortáveis”. Aquelas de vos dar autonomia nas tarefas e decisões do dia a dia, de vos ensinar a decidirem sozinhas, pela vossa cabeça, de lidarem com as consequências dos vossos atos.

Isso é dar asas, não é? São estas as asas que se dão às “pequeninas”. Ah, espera, vocês já não são tão pequeninas assim… Já passámos a fase de vos deixar andar pelos vossos pés. Agora temos de vos deixar voar. Literalmente. Para longe de nós. Porque o vosso coração precisa de amar e ser amado para além de nós, pais. Porque o vosso caminho precisa de aprender a sê-lo sem ter os nossos pés por baixo. Porque os vossos olhos precisam de ver para além do que a nossa vista alcança.

Nós sabemos disto e, por isso, não hesitámos em decidir pelas vossas asas. Acreditem, foi fácil, nem pestanejámos. O que nem sempre é fácil é assimilar o depois da decisão. É uma espécie de despedida que temos de fazer. Porque sabemos que depois de terem voado sozinhas, o vosso mundo se torna maior do que as mãos com que sempre vos segurámos, porque sabemos que de centro do universo passámos a “retaguarda”. Nada disto tem mal, nós sabemos, por isso vos deixámos voar, mas tenham paciência connosco, que mesmo sabendo que não são nossos, tínhamos criado um patamar de anos em que podíamos fingir que sim… e que agora chegou ao fim.

Estamos orgulhosos de nós, por termos conseguido ser generosos para vos deixar voar. Estamos orgulhosos por sermos capazes de cumprir, sem hesitação, aquilo em que sempre dissemos acreditar. Não era só garganta, estão a ver?
Estamos ainda mais orgulhosos de vocês, por terem coragem de usar as vossas asas. Afinal, os passos pequenos que vos deixámos dar até agora foram úteis e verdadeiros, prepararam-vos para o voo.

Mas temos de admitir que isto custa um bocadinho, até para os descontraídos. É que uma ervilha para um amor desmedido não deixa de ser desconfortável. E eu até nem gosto muito de ervilhas.