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Um horizonte europeu menos carregado
03.07.2017
O receio da União Soviética, que depois da II Guerra Mundial “anexou” vários países do Leste europeu, representou um cimento para a integração da Europa Ocidental. Com o colapso do comunismo e o fim da Guerra Fria, esse cimento desapareceu. Depois da queda do Muro de Berlim, a maioria dos países que haviam estado sob o poder soviético optou por aderir a União Europeia (UE), além da NATO.
 
Esse grande alargamento da UE era necessário do ponto de vista geoestratégico, mas complicou a tomada de decisões na Europa comunitária. E países como a Hungria e a Polónia, membros da UE, tomaram medidas pouco consentâneas com a democracia, como a interferência do poder político na justiça. O próprio primeiro-ministro húngaro classifica o regime vigente no seu país de “democracia iliberal”.
 
Ao mesmo tempo, verificou-se um forte crescimento do euroceticismo, até em países fundadores da integração europeia, como a Holanda. Bruxelas era acusada de falta de democracia. A verdade é que os dirigentes europeus não se preocuparam muito com esse problema, o que foi um erro.
 
A mais clara manifestação de descontentamento com a UE foi dada pelo Reino Unido, que, tendo entrado na CEE em 1973, no passado dia 29 de março entregou o pedido formal de saída da UE – iniciando o chamado Brexit, após um referendo convocado pelo então primeiro-ministro David Cameron, convencido de que venceria a opção de permanecer na União. Perdeu.
 
Entretanto, cresciam os movimentos contra a UE, em boa parte por causa da entrada de refugiados muçulmanos na Europa e do terrorismo. Aqui a UE falhou, pois foi incapaz de dar uma resposta europeia à crise. Cada Estado-membro tem a sua resposta, a qual, em países da antiga órbita soviética, é a recusa de receber qualquer refugiado.
 
A onda antieuropeia parecia imparável até há pouco. Receou-se que Marine Le Pen se tornasse presidente de França. Mas isso não aconteceu e hoje a Frente Nacional atravessa uma crise. Em França, foi eleito presidente um europeísta convicto e muito afirmativo, Emmanuel Macron. Antes, na Holanda, o partido contrário à UE e à imigração falhara também o primeiro lugar em eleições. Mais recentemente, o partido populista e antieuropeu de Beppe Grillo sofreu uma significativa derrota nas eleições autárquicas em Itália.
 
É provável que a chanceler Merkel obtenha, em setembro, o seu quarto mandato como chanceler (primeiro-ministro) da Alemanha. Merkel é uma europeísta e tem evoluído. Se encontrar em Macron um parceiro à sua altura, o eixo franco-alemão poderá, de novo, contribuir para o relançamento da integração europeia.
 
A saída do Reino Unido, sendo uma perda para a Europa comunitária, ao contrário do que se temia, não levou outros Estados-membros atrás. Pelo contrário, é patente agora uma maior unidade entre os 27 que se vão manter na UE. 
 
Trump mostrou simpatia pelos políticos europeus contrários à UE. E não pareceu muito empenhado na NATO. Ou seja, os países da UE que, na sua maioria, viveram décadas sob proteção militar americana, perceberam finalmente que não poderiam já contar a cem por cento com essa proteção. O que os obriga a pensar a sério numa defesa europeia. É um outro impulso à integração.
 
Não significa isto que as perspetivas da integração europeia sejam otimistas. O Brexit implica uma negociação muito difícil. O euro ainda não foi alvo de reformas que garantam a sua estabilidade. O drama dos refugiados mantém-se. Mas o horizonte europeu parece hoje um pouco menos carregado do que estava ainda há escassos meses.
 
 
Francisco Sarsfield Cabral