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Virtudes sociais
17.07.2017
Como que antecipando os trágicos acontecimentos que têm assolado o país, a Conferência Episcopal Portuguesa publicou, em 27 de abril passado, uma Nota Pastoral intitulada: Cuidar da casa comum - prevenir e evitar os incêndios.

Os comportamentos negligentes e criminosos, incluindo os interesses que lhes possam estar subjacentes, a falta de conservação dos terrenos, por incúria do Estado e de particulares ou até por incapacidade destes, são razões apontadas pelos bispos portugueses para que se passe a uma ação concreta: «É o património florestal que se vai perdendo de uma forma igualmente sem paralelo. São os notórios custos humanos, sociais, económicos e ecológicos decorrentes desta situação. (…) Estamos convencidos de que as causas do flagelo dependem direta ou indiretamente da vontade humana. E, como tal, só pode prevenir-se ou combater-se com eficácia, se todos nós, desde o cidadão mais simples ao mais responsável, em vez de vãs lamentações, mudarmos realmente de mentalidade e de hábitos sociais.»

Para que tal aconteça ocorre a devida perceção de um novo conceito de pecados sociais que ainda passam ao lado dos propósitos e exames de consciência.

Ainda hoje é frequente o confronto pessoal com um elenco de pecados próprio de uma catequese adequada à situação social de há décadas, que se mantém atual na essência dos ensinamentos evangélicos, mas que ainda não reflete muita da realidade das condições da vida atual, onde, cada vez mais, influem formas de pensar que pouco ou nada se coadunam com os ideais cristãos.

Ora o Evangelho não está confinado a linguagens e tempos determinados. Traz a dinâmica constante que Jesus transmitiu desde o início da pregação, no convite à conversão. Pegando na famosa regra de ouro dos antigos que a Bíblia também propõe, «não faças a ninguém aquilo que não gostas que te façam a ti» (Tb 4,15), assume-a invertendo o ónus da atitude de uma perspetiva passiva e omissa de não se incomodar para não se ser incomodado, no compromisso com os outros. Por isso afirma: «Tudo o que desejais que os outros vos façam, fazei-o também a eles.» (Mt 7,12)

O ensinamento de Jesus exige ação, entrega, espírito de iniciativa. Não basta a tranquilidade de consciência de quem reconhece que não matou nem furtou. Falta ainda assumir uma conduta de vida que contemple o cumprir de obrigações que fazem parte das virtudes sociais por vezes esquecidas, tais como o respeito pelas obrigações fiscais, o Código da Estrada, os deveres para com colaboradores ou pessoas que estejam ao próprio cuidado, o proporcionar o bem-estar do outro mediante atitudes altruístas, no trânsito, nas filas de espera nos serviços ou noutros espaços, o cuidar da nossa “casa comum”, de cujo desmazelo talvez nunca nos recordemos de pedir perdão a Deus, que no-la confiou.

A regra de ouro na perspetiva cristã resume-se no respeito pelas virtudes sociais traçadas pelo Evangelho, no sentido de se fazer o que gostaríamos que nos fizessem e não esperar que outros o façam, quando está ao nosso alcance e é dever de todos. Não basta agir apenas quando está em causa a própria pessoa e os seus bens. É muito ténue a linha que separa o não causar o mal ao outro do não nos incomodarmos com os outros. Seria sempre voltar ao que era dito no antigamente: «Não faças o que não queres que te façam», sob pena de se instaurar uma realidade omissa e individualista baseada no não fazer para se ser respeitado, permitindo ao outro tudo, desde que não incomode.